O BRASIL QUE HUMILHA SEUS PROFESSORES: Quando Ensinar se Torna Ofensa
Ricardo Vianna HOFFMANN
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Brusque (SC)
Professores foram xingados pelo vereador Pavanato, da Câmara Municipal de São Paulo/SP. Antes disso, há tempos, um empresário xingou os advogados de forma pejorativa, igualando-nos a porcos que gostam de lama e chamando-nos de abutres. O mesmo empresário atacou as universidades públicas e, mais recentemente, os cursos de Humanas. O vereador, em São Paulo/SP, da tribuna da Câmara Legislativa, chamou os professores de “burros” e “vagabundos” por protestarem contra o pequeno aumento salarial de apenas 3,51% concedido à categoria.
Leitor, assista ao vídeo em que o vereador Pavanato xinga os professores: [https://www.youtube.com/watch?v=cwdJaGfTBrM]. O vídeo mostra o vereador Lucas Pavanato utilizando a tribuna da Câmara Municipal de São Paulo para atacar verbalmente professores em greve, chamando-os de “vagabundos” durante a discussão sobre o reajuste salarial dos servidores municipais. Depois, o vereador afirmou que não estava se referindo aos professores, mas aos sindicalistas. Porém, os grevistas são os próprios professores. O contexto do debate envolvia um reajuste de apenas 3,51%, parcelado em duas etapas, considerado insuficiente por sindicatos e parlamentares de oposição.
A Medida Provisória nº 1.334, de 21 de janeiro de 2026, reajustou o piso salarial nacional dos professores da educação básica para R$ 5.130,63, considerando uma jornada de 40 horas semanais. Entretanto, os vencimentos iniciais apresentam diferenças significativas entre os estados, em razão de gratificações, adicionais e distintos regimes remuneratórios adotados pelas unidades federativas. Em Santa Catarina, por exemplo, o piso estadual está fixado em R$ 5.000,00.
O ranking dos salários iniciais brutos pagos pelas redes estaduais* evidencia as desigualdades regionais existentes no país:
- Mato Grosso do Sul — R$ 13.007,12
- Maranhão — R$ 8.452,03
- Pará — R$ 8.289,86
- Roraima — R$ 7.700,47
- Mato Grosso — R$ 7.343,44
- Paraíba — R$ 6.944,09
- Rio Grande do Norte — R$ 6.814,88
- Amapá — R$ 6.600,98
- Distrito Federal — R$ 6.427,71
- Sergipe — R$ 6.176,76
- Tocantins — R$ 6.130,70
- Pernambuco — R$ 5.841,91
- Alagoas — R$ 5.767,15
- Espírito Santo — R$ 5.685,97
- Amazonas — R$ 5.631,18
- São Paulo — R$ 5.565,00
- Acre — R$ 5.370,35
- Goiás — R$ 5.160,49
- Rondônia — R$ 5.118,41
- Rio Grande do Sul — R$ 5.111,05
- Santa Catarina — R$ 5.026,80
- Piauí — R$ 4.984,17
- Bahia — R$ 4.965,24
- Ceará — R$ 4.961,73
- Paraná — R$ 4.920,55
- Minas Gerais — R$ 4.867,97
- Rio de Janeiro — R$ 4.867,77.
Para obter informações mais detalhadas sobre a remuneração em sua localidade, é possível consultar os valores nominais disponibilizados no Portal SIOPE [https://www.gov.br/fnde/pt-br/assuntos/sistemas/siope], vinculado ao Ministério da Educação. Já os dados completos referentes às carreiras estaduais podem ser acompanhados por meio da análise dos respectivos planos de carreira, reunidos nas atualizações realizadas pelo Movimento Profissão Docente [https://www.profissaodocente.org.br/].
Na mesma Câmara de Vereadores de São Paulo, a vereadora Rute Costa (Rute Freire da Costa Silva), vice-líder do governo (PL), após afirmar ser filha de professora, defendeu, da tribuna, o aumento salarial de 3,51% concedido aos professores pelo governo de Ricardo Nunes. Como argumento comparativo, mencionou o reajuste concedido no governo Haddad, que teria sido de 0,01%.
Enquanto discursava, pelo que se pode depreender do vídeo, alguém aparentemente questionou o salário dos vereadores, e ela respondeu: “o vereador só tem aumento de 8 em 8 anos, então vem ser vereador...”. Pena que não perguntaram quanto ela, como vereadora, ganhava.
Pois é, pois é!
Leitor, facilmente você encontrará, no Portal da Transparência da Câmara Municipal de São Paulo, o seguinte:
“Custos de Mandato
Cada vereador dispõe, em 2025, de uma verba anual de até R$ 416.475,00 (média mensal de R$ 34.706,25), destinada ao custeio de serviços gráficos, correios, assinaturas de jornais, deslocamentos por toda a cidade e materiais de escritório, entre outras despesas. Trata-se do Auxílio-Encargos Gerais de Gabinete, previsto em lei (veja, abaixo, a relação das leis que tratam deste item).
Dentro desse limite, as despesas realizadas diretamente pelo vereador são ressarcidas mediante a apresentação de notas fiscais ou documentos equivalentes. A Câmara possui contratos para locação de veículos, correios e reprografia — firmados com base na Lei de Licitações —, que podem ser utilizados pelos parlamentares.
A soma desses itens administrados centralmente pela Casa com aqueles pagos diretamente pelo gabinete não pode exceder o limite anual fixado por lei para cada vereador.”
Verificando sobre a vereadora Rute Costa os resumo do mês de abril de 2026 de “Auxílio-Encargo Gerais de Gabinete”, lê-se no portal da transparência que, no mês de abril de 2026, o gasto referente ao “Resumo do Mês do Auxílio-Encargos Gerais de Gabinete” foi de R$ 12.402,68. Já no acumulado do ano, o valor registrado no “Resumo do Ano do Auxílio-Encargos Gerais de Gabinete” alcançou R$ 92.668,75.
Pesquisar em: https://www.saopaulo.sp.leg.br/relatorio-por-natureza-de-despesa-partir-de-2015/
Já o salário atual de um vereador da cidade de São Paulo é de R$ 26.080,80 mensais. Esse valor foi fixado após reajuste de 37% aprovado pela Câmara Municipal no final de 2024, passando a vigorar integralmente a partir de fevereiro de 2025.
E, como demonstrado anteriormente, além do subsídio (salário), os parlamentares contam com uma verba específica mensal chamada “Auxílio-Encargos Gerais de Gabinete”, de até R$ 34.706,25 em média, destinada a cobrir despesas de mandato (como material de escritório e serviços gráficos), cujo uso é fiscalizado por meio de prestação de contas.
É preciso dizer que o chamado “Auxílio-Encargos Gerais de Gabinete” é utilizado por vereadores de diferentes siglas partidárias, sem qualquer pudor ou constrangimento.
Para mais detalhes sobre a transparência e os custos da Câmara Municipal, você pode consultar o Portal da Câmara Municipal de São Paulo.
A vereadora Rute Costa não equiparou seu salário e os auxílios recebidos ao salário dos professores. Sua infeliz fala: “o salário do vereador aumenta de oito em oito anos... querem passar 8 anos sem aumento? Vem ser vereador!”, ressoará por muito tempo e ficou registrada nos anais daquela “Casa do Povo”.
Ela apenas esqueceu de equiparar o salário-base do professor da cidade de São Paulo, de R$ 5.565,00, ao da vereadora, de R$ 26.080,80, sem contar os “auxílios”.
Esses episódios, somados a tantos outros ataques dirigidos a professores universitários, aos cursos de Humanas e à própria educação crítica, revelam um ambiente cada vez mais marcado por discursos de hostilidade contra o magistério. Esse tipo de postura não contribui para que o Brasil avance de maneira sólida e democrática; ao contrário, dificulta o desenvolvimento social, científico e educacional do país. Enquanto isso, os investimentos públicos frequentemente privilegiam estruturas político-partidárias em detrimento da pesquisa, da ciência e da valorização da educação.
Pesquisas internacionais recentes demonstram que os professores brasileiros se sentem pouco valorizados socialmente. Dados da pesquisa TALIS 2024, coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontam que apenas 14% dos professores brasileiros afirmam sentir que sua profissão é valorizada pela sociedade, índice inferior à média dos países da OCDE, que é de 22%.
Além disso, relatórios e análises internacionais sobre a valorização docente indicam que o Brasil ocupa posições preocupantes em rankings relacionados ao reconhecimento social da profissão docente, revelando um cenário persistente de desvalorização profissional e precarização das condições de trabalho.
Nesse contexto, percebe-se que disputas político-ideológicas muitas vezes se sobrepõem ao debate sério sobre políticas públicas voltadas à valorização efetiva dos professores, comprometendo não apenas a dignidade da carreira docente, mas também o futuro da educação brasileira.
Romper com essa cultura de desvalorização exige mais do que indignação momentânea. É necessário fortalecer uma cultura de respeito aos professores, combater discursos de ódio dirigidos ao magistério e compreender que atacar educadores significa enfraquecer a própria democracia.
A valorização docente passa por salários dignos, melhores condições de trabalho, investimentos em educação, respeito institucional e reconhecimento social da importância daqueles que formam todas as demais profissões.
Também cabe à sociedade refletir sobre o papel da política nesse processo. Em um ano eleitoral, torna-se fundamental que os eleitores observem atentamente o posicionamento de candidatos e representantes públicos em relação à educação e aos professores.
O voto consciente é um instrumento democrático legítimo para apoiar projetos comprometidos com a valorização da educação pública, da ciência, das universidades e do magistério, bem como para rejeitar discursos ofensivos, humilhantes ou contrários à dignidade da profissão docente.
Uma sociedade que humilha seus professores compromete não apenas o presente da educação, mas também as possibilidades de construção de um futuro mais justo, crítico e democrático.
Afinal, quando se humilha, desvaloriza e fere a dignidade dos professores, atinge-se toda a categoria docente, inclusive aquela professora ou aquele professor que, em algum momento da vida, acolheu, incentivou, ensinou e deixou marcas positivas na trajetória escolar e humana de seus alunos.
Pense nisso.
Fontes:
PAVANATO, Lucas. Professores são chamados de “vagabundos” na Câmara Municipal de São Paulo. YouTube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cwdJaGfTBrM. Acesso em: 25 maio 2026.
BRASIL. Presidência da República. Medida Provisória nº 1.334, de 21 de janeiro de 2026. Altera a Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008, para dispor sobre o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica. Brasília, DF: Presidência da República, 2026. Disponível em: Planalto – MPV nº 1.334/2026. Acesso em: 25 maio 2026.
CONECTA PROFESSORES. Professores: veja os melhores salários por estado do país. 23 mar. 2026. Disponível em: Conecta Professores. Acesso em: 25 maio 2026.
BRASIL. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). SIOPE – Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação. Brasília, DF: FNDE, [s.d.]. Disponível em: SIOPE – FNDE. Acesso em: 25 maio 2026.
MOVIMENTO PROFISSÃO DOCENTE. Movimento Profissão Docente. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: Movimento Profissão Docente. Acesso em: 25 maio 2026.
CNN BRASIL. Aumento de 37% para salário de vereadores em SP: como foi aprovado e qual motivo. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: CNN Brasil. Acesso em: 25 maio 2026.
SÃO PAULO (Município). Câmara Municipal de São Paulo. Relatório por natureza de despesa a partir de 2015. São Paulo: Câmara Municipal de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: Câmara Municipal de São Paulo – Relatório por natureza de despesa. Acesso em: 25 maio 2026.
YOUTUBE. Vereadora defende 3,48% a professores e diz: “Querem passar 8 anos sem aumento? Vem ser vereador!”. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nXsEMXxaXJw. Acesso em: 25 maio 2026.
JEDUCA. TALIS 2024 traça perfil da profissão docente em 54 países, entre eles o Brasil. Jeduca, [s.d.]. Disponível em: https://jeduca.org.br/noticia/talis-2024-traca-perfil-da-profissao-docente-em-54-paises-entre-eles-o-brasil. Acesso em: 25 maio 2026.
REDEPRESS. Brasil fica em último lugar em ranking global de valorização de professores e acende alerta para crise na educação. RedePress, abr. 2026. Disponível em: https://redepress.com.br/noticias/2026/04/brasil-fica-em-ultimo-lugar-em-ranking-global-de-valorizacao-de-professores-e-acende-alerta-para-crise-na-educacao/#gsc.tab=0. Acesso em: 25 maio 2026.
CONGRESSO EM FOCO. O Brasil que humilha seus professores compromete o próprio futuro. Congresso em Foco, 27 abr. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/artigo/118400/o-brasil-que-humilha-seus-professores-compromete-o-proprio-futuro. Acesso em: 25 maio 2026.