COPA DO MUNDO: A CAMISA VERMELHA DA SELEÇÃO BRASILEIRA E A AUSÊNCIA DO VERDE
Ricardo Vianna HOFFMANN
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Brusque (SC)
A Copa do Mundo está chegando, e a camisa vermelha da seleção brasileira voltou ao debate. Enquanto muitos discutem a camisa vermelha da Seleção, poucos percebem a ausência do verde, não o da tradicional camisa verde-amarela, mas o que falta nas ruas.
O verde que desaparece não é o da camisa; é o da cidade. Falta nas calçadas, nas praças, nas margens dos rios. Escandaliza-se a nação pela cor de uma camisa, mas permanece indiferente diante da cor que desaparece da cidade. Afinal, “que país é esse” que chora o vermelho da camisa, mas silencia diante da cidade que desbota?
Era uma vez uma cidade que se orgulhava de suas fábricas, da "voz singular dos teares", de seus tecidos e da força de sua gente. Mas, ao cantar: “conquistada vai sendo a floresta”, não percebeu que não parou de “conquistar” e seguiu derrubando árvores.
Teria Brusque esquecido o valor da sustentabilidade? Caminha-se por calçadas sem sombra, sob um sol cada vez mais implacável, sem árvores que amenizem o calor ou abriguem o canto dos pássaros.
Brusque, minha Brusque! “Terra minha! Só tens ocupado posição de relevo, altaneira. E teu nome, entre mil, é citado como exemplo à nação brasileira...”. Hoje, porém, não serve de exemplo. Ostenta, ao contrário, um título preocupante: é a cidade menos arborizada do Brasil. Apenas 22% de suas ruas possuem alguma árvore, o restante serve quase exclusivamente ao concreto e aos veículos.
Sim, leitor, eu sei: a mobilidade importa. A cidade cresce, o trânsito exige fluidez. Mas será que desenvolvimento e natureza são inconciliáveis? Não caberia aos gestores públicos esse olhar sensível? E não é também nossa, enquanto cidadãos e cidadãs, a responsabilidade cotidiana de cuidar da cidade em que vivemos?
O dado do IBGE não surpreende. Apenas oficializa aquilo que se tornou tão naturalizado que já nem se questiona, praças com poucas árvores, avenidas largas sem verde algum. E, ao fundo, continua o silêncio das árvores que nunca foram plantadas ou que foram cortadas em nome do “progresso”, ou, pior ainda, cortadas por oferecerem sombras e abrigos a pessoas em situação de rua.
Mas veja, leitor, não é apenas uma questão estética. Trata-se de ética. Arborizar uma cidade é um gesto de cuidado. É um ato civilizatório. É reconhecer, com responsabilidade, que o espaço urbano também pertence a quem caminha, respira e sonha.
Faltam árvores? Sim. Mas talvez o que falte, mais ainda, seja tempo para ouvir o canto dos pássaros, de observar a folha que cai, de ensinar uma criança a plantar uma árvore como quem planta o próprio futuro.
Arborizar é resistir. Resistir ao avanço do deserto urbano. Arborizar é reconciliar-se com a natureza ferida que, mesmo curando de suas cicatrizes, ainda nos espera, pacientemente. Mas até quando?
A notícia preocupa, mas também pode convocar à ação. Que o Plano Municipal de Arborização não seja apenas promessa, mas o início de uma transformação verdadeira, urbana, cultural e ética.
Que Brusque volte a florir. Não apenas nas calçadas, mas no coração de quem nela vive.
“Salve Brusque Imortal.”
Pense nisso.