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DIA DO SILÊNCIO
QUANDO O SILÊNCIO SE TORNA CÚMPLICE, A PALAVRA SE TORNA RESISTÊNCIA
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Publicado em 07/05/2026 21:14 • Atualizado 07/05/2026 21:15
Entretenimento

DIA DO SILÊNCIO

QUANDO O SILÊNCIO SE TORNA CÚMPLICE, A PALAVRA SE TORNA RESISTÊNCIA

 

Ricardo Vianna HOFFMANN

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                                                                                          Brusque (SC)

 

“Quando nos calamos, abandonamos o mundo aos canalhas”
- Kurt Blumenfeld

 

Confesso: eu preferia ficar calado, mas não consigo. Muitas vezes preferi o conforto do silêncio. Diante de tantas vozes exaltadas e conflitos intermináveis, calar-se parece um refúgio seguro, um escudo contra agressões e incompreensões. O silêncio, nessas horas, oferece uma trégua, evita discussões, poupa nossas energias e desconfortos.

No entanto, essa quietude supostamente protetora encontra um limite ético. Chega um momento em que ficar calado deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade.

Paulo Freire, patrono da educação brasileira, em mais uma lição, afirmou: “Meu papel não é ficar em silêncio”. Quem detém o conhecimento ou a consciência não pode deixar de usá-los, sob o risco de trair a própria humanidade que pretende defender.

A consciência pesa e sussurra que há verdades que precisam ser ditas, injustiças que exigem denúncia. Eu preferia ficar calado, é verdade, mas não consigo ignorar esse chamado interior para falar ou escrever.

Mergulhados em um cenário de intolerância e polarização, muitos de nós sentem receio de falar o que pensam. Vivemos tempos em que expressar uma opinião pode nos tornar alvos de ataques imediatos, ofensas e até ameaças. Um encontro, um almoço, uma foto são motivos para ataques.

Pois é, Pastor Ludwig! Nas redes sociais, debates degradam-se em agressões, nas conversas cotidianas, impera a lógica do “quem não concorda comigo está contra mim”. [Escrevi: “Quem não pensa igual a mim não é meu inimigo” - livro: Pense Nisso.]

Assim, instala-se uma espécie de censura social, não é uma mordaça oficial, mas uma pressão coletiva que cala vozes pelo medo. O resultado é um silêncio forçado, fruto do terror de linchamentos morais e “cancelamentos” públicos, enquanto, ironicamente, discursos de ódio ecoam livremente, travestidos de “liberdade de expressão”.

Quem defende tolerância e direitos humanos é taxado de inimigo ou, no sentido pejorativo de “politicamente correto”, e quem ousa questionar o status quo arrisca pagar um preço alto. Diante desse quadro sufocante, calar-se parece, à primeira vista, a opção mais segura para sobreviver ileso.

É nesses momentos que a responsabilidade da palavra se agiganta. Educadores, intelectuais, advogados, advogadas e todos os cidadãos e cidadãs conscientes carregam o dever de não se omitir diante do preconceito, da injustiça e do ataque à democracia.

Se justamente aqueles que podem iluminar mentes e questionar os absurdos escolherem o silêncio, quem irá conter a escalada de ataques ao Estado Democrático de Direito, da ignorância e da estupidez?

A palavra, quando guiada pela ética e pela empatia, tem um poder transformador: ela educa, consola, denuncia abusos e confronta os opressores. O ato de falar e escrever, portanto, torna-se um compromisso moral.

Cada vez que nos calamos diante de uma injustiça, algo essencial se perde, seja a chance de corrigir o erro, seja um pouco da nossa dignidade. O silêncio repetido perante o erro acaba se tornando sinônimo de conivência; “quem cala consente”, ensina o ditado popular. E, enquanto os bem-intencionados se calam, os sem escrúpulos se fazem ouvir ainda mais alto.

As vozes do ódio e da mentira ocupam todo o espaço que deixamos vazio. A história nos ensina isso de forma trágica, preconceitos se perpetuam, violências são relativizadas e viram rotina, e regimes autoritários se erguem quando uma maioria silenciosa escolhe a complacência.

Não por acaso, Martin Luther King Jr. advertiu: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Em outras palavras, o silêncio dos justos é o combustível da injustiça. É por isso que falar se tornou uma urgência inadiável.

Leitor, sim, há medo. Sim, podemos nos sentir isolados, vulneráveis aos ataques dos intolerantes. Quem nunca sentiu um nó na garganta ao testemunhar uma injustiça e hesitou em romper o silêncio?

Contudo, a coragem não é a ausência de medo, e sim a decisão de se levantar apesar dele. Cada voz que se ergue conta, mesmo que esteja trêmula e sozinha no início. Muitas vezes, basta alguém dar o primeiro passo, dizer aquilo que tantos gostariam de dizer, para romper o silêncio e inspirar outros a se manifestarem.

Mesmo que pareça inútil ou perigoso, falar é como acender uma lamparina em meio à escuridão, pequena, mas capaz de guiar e dar esperança.

Em tempos sombrios, uma única chama de lucidez e indignação vale mais do que a aparente paz de uma multidão silenciosa.

No fim das contas, não se trata apenas de uma escolha individual, mas de um apelo à consciência coletiva. Cada um de nós carrega a responsabilidade de manter viva a dignidade humana por meio da palavra, da escrita e da ação.

Precisamos, como sociedade, redescobrir a coragem de dizer “basta!” diante da injustiça e de toda indignidade. Transformar o incômodo em atitude, a indignação em voz ativa, eis o desafio urgente que compartilhamos.

Se hoje calamos diante do sofrimento alheio, amanhã poderá não haver ninguém para falar quando a injustiça nos atingir. Este é um chamado para que nossas vozes se unam em um só coro de solidariedade e lucidez.

Que não aceitemos a falsa paz que emudece a verdade, mas sim a inquietação que nos move a reivindicar o que é justo.

Leitor, resistir, aqui, significa falar com consciência e coragem. A palavra honesta, dita no momento certo, é um ato de dignidade e pode mudar destinos.

Eu preferia ficar calado, mas não consigo. E convido cada leitor a também recusar o silêncio diante do inaceitável.

Que nossa voz coletiva seja a chama que resiste à tempestade dos preconceitos e das opressões. Não nos calemos. “A chama continua acesa”.

Em homenagem ao imortal e amigo Herbert Pastor.

Pense nisso.

 

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