INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO DO PENSAMENTO CRÍTICO: QUEM ESTÁ PENSANDO POR VOCÊ?
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Aos meus alunos do curso de Direito e aos voluntários do LACEDH-UNIFEBE, não abram mão de sua autonomia. Sejam críticos, questionadores e reflexivos. Leiam, leiam e leiam. E, mesmo que lhes digam para não irem à universidade, não deem ouvidos à estupidez (leiam: “Estupidez”, de Dietrich Bonhoeffer). Continuem seus estudos e incentivem outras pessoas a estudar.
O Papa Leão XIV (Robert Francis Prevost) afirmou que “a educação, com efeito, nos ensina a olhar para o alto, cada vez mais para o alto”.
Ele estabelece uma analogia com Galileu Galilei, que, com o telescópio, descobriu novos mundos, “assim é a educação: um telescópio que permite olhar além, descobrir o que sozinhos não conseguimos ver. Portanto, não se limitem a olhar para o celular e para seus fugazes fragmentos de imagens: olhem para o céu, olhem para o alto”.
Hoje, temos a inteligência artificial (IA). Ela é fantástica, e muitas áreas evoluirão de maneira muito rápida, e isso é bom.
Na educação, a IA pode melhorar a escrita e produzir, em segundos, o resumo de um livro. Sem dúvida, isso é impressionante.
Mas, aluno, leitor, para ficarmos apenas nesse exemplo, é preciso dizer com clareza, esse resumo não é teu.
Para elaborar um resumo, é preciso ler a obra inteira. No meu resumo, sou eu quem escolhe o que é importante. Posso, inclusive, sem perceber, deixar escapar algo essencial ou excluir um ponto relevante por julgá-lo secundário. Ainda assim, esse processo é meu, fruto da minha leitura, da minha interpretação e das minhas experiências.
Entretanto, quando não leio o livro e apenas forneço comandos (prompts) à IA, quem realiza a leitura são os algoritmos. O resumo produzido, que passo a utilizar, não é meu. Transfiro, assim, o juízo, os argumentos e os pensamentos que passarão a compor minha fala e, talvez, minhas crenças e até minhas possíveis ações. Não são construídos a partir das minhas experiências vividas, mas de um processamento algorítmico. E, pior, posso acreditar nesse conteúdo como se fosse fruto da minha própria reflexão.
Deixo de pensar por mim mesmo e passo a pensar a partir do resumo produzido pela IA. Minhas reflexões e minhas ideias futuras deixam de se fundamentar na leitura integral e passam a se apoiar em sínteses feitas por algoritmos.
Aluno, leitor, não podemos delegar isso a terceiros, sejam outras pessoas (como políticos e suas ideologias) ou a tecnologia. Precisamos pensar por nós mesmos. Caso contrário, atrofiamos nossa capacidade de reflexão.
Diante desse cenário, não se trata de rejeitar a inteligência artificial, mas de aprender a utilizá-la com consciência e responsabilidade. A IA deve ser uma ferramenta auxiliar, e não substituta do pensamento. Utilize-a para revisar um texto, comparar ideias ou esclarecer dúvidas, mas nunca para pensar por você. O protagonismo do conhecimento precisa continuar sendo humano.
É necessário resgatar o valor do processo de aprendizagem. Ler integralmente um livro, fazer anotações, construir sínteses próprias, errar, voltar ao texto, questionar, tudo isso faz parte da formação intelectual.
O aprendizado não está apenas no resultado final, mas no caminho percorrido. É nesse longo caminho que desenvolvemos nossa autonomia, nosso senso crítico e nossa capacidade de argumentação.
Outra prática fundamental é a de saber fazer perguntas. Antes de buscar respostas prontas, é preciso aprender a perguntar melhor. Perguntas bem feitas revelam uma postura crítica. pensamento ativo. Uma postura crítica.
Em sala de aula, nos estudos individuais ou no uso da IA, o estudante deve se colocar como sujeito do conhecimento, como ensina Paulo Freire, e não como mero receptor de conteúdos.
Importante, também, é manter a própria escrita, ou seja, escrever com suas palavras, ainda que imperfeitas, (mas legíveis), é um exercício de pensamento. A clareza da escrita reflete a clareza das ideias. Ao delegar essa tarefa integralmente à IA, o estudante abre mão de um dos principais instrumentos de construção do raciocínio, (jurídico ou não).
Por fim, é fundamental compreender que a autonomia intelectual é uma conquista diária. Ela exige disciplina, leitura constante, quanto mais se exercita, melhor fica, além de disposição para o desconforto intelectual e coragem para pensar diferente. A tecnologia pode facilitar caminhos, mas não pode substituir aquilo que é mais essencial na formação humana, ou seja, a sua capacidade de refletir, questionar e construir um sentido próprio sobre o mundo.
Quando deixo de pensar, deixo de refletir; quando deixo de refletir, deixo de ser crítico. Torno-me frágil e passo a seguir aquele que pensou por mim, sem questionar, sem problematizar, sem perguntar. Ao perder a autonomia, passo a ser um mero seguidor.
Leitor, seja um insubmisso. Faça perguntas. Não troque a sua autonomia. Seja livre.
Leiam, leiam e leiam!
Pense nisso.
Referências:
VATICANNEWSPT. Discurso aos estudantes por ocasião do Jubileu do Mundo Educativo. Instagram, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.instagram.com/vaticannewspt. Acesso em: 20 abr. 2026.
ESTOICISMOAPLICADOHOY. Educação. “Filosofia Estoica para la vida real”. Instagram, Espanha, [s.d.]. Disponível em: https://www.instagram.com/estoicismoaplicadohoy. Acesso em: 20 abr. 2026.