O MITO DA CASERNA
Por Ricardo Vianna Hoffmann
A partir de Brusque/SC
Imagine muitas pessoas em frente à caserna, onde não podiam entrar, pois lá dentro moravam muitos soldados que possuíam armas, tanques, canhões e munições para a defesa do país, de sua soberania e de seu povo.
As pessoas ficavam na frente da caserna; não saíam, dormiam, comiam, bebiam, jogavam cartas, dominó e rezavam. Fizesse sol ou chuva, dia e noite, permaneciam sempre olhando para a caserna.
Eles olhavam, o tempo todo, para o portão do quartel e ouviam o som de marchas, gritos, tanques e caminhões em movimento; ouviam tiros. Esses sons alimentavam suas esperanças e sustentavam a crença em uma reviravolta nas eleições perdidas pelo “candidato-mito”.
Permaneciam acorrentados em frente aos quartéis, com os olhos fixos em uma única direção: os quartéis. Incapazes de olhar ao redor, não conseguiam enxergar outras possibilidades.
Com seus olhares sempre naquela direção, ouviam o bater dos coturnos dos soldados em marcha, os estampidos dos tiros de fuzil em treinamento e o roncar dos tanques.
Essas eram as únicas verdades que ouviam e queriam como realidade da vida. Ali rezavam, pedindo que os soldados os libertassem daquela humilhante derrota.
A cada fala de seus líderes, ficavam animados, felizes e cheios de esperança! De 72 em 72 horas, esperavam que aqueles soldados saíssem da caserna e, com suas armas, tanques e com muita violência, tomassem a cidade e colocassem o seu “mito” novamente no poder.
Um dia, um deles conseguiu se livrar das correntes e se libertou da frente do quartel. Conseguiu entrar e, lá dentro, viu muitos soldados em seus afazeres: alguns varrendo o pátio e as calçadas, outros pintando o meio-fio, outros limpando os armamentos.
O liberto levou as mãos aos olhos e esfregou-os, como quem não acreditava. Continuou andando entre os soldados e viu aqueles que faziam ordem unida e os que treinavam tiro ao alvo, onde teve um suspiro de felicidade.
Até que parou em frente a um comandante e iniciou uma conversa, perguntando:
- Os tanques não irão para as ruas?
- Para quê? - perguntou o comandante. Não estamos em guerra!
- Mas vocês precisam nos salvar. O nosso líder precisa permanecer no poder.
- O seu líder não perdeu a eleição no voto? Vamos respeitar as urnas; na democracia é assim!
- E nossos pedidos, do povo? De “Intervenção militar já!”? A volta do “AI-5”? Vocês não farão nada? Permanecerão na caserna?
- Sim, numa democracia é assim: perde-se e ganha-se! Afirmou o comandante.
O desiludido liberto fez meia-volta, cabisbaixo, e, enquanto saía do quartel para contar a novidade aos que estavam nas calçadas em frente ao QG, ouviu, ainda, o comandante dizer-lhe:
- Leia a Constituição Federal e indique a leitura aos que estão nas calçadas.
Os “aquartelados” nas calçadas, ao verem que o liberto voltava, interromperam as rezas, os churrascos, as bebidas e os jogos de cartas e dominó e voltaram seus olhares para ele e perguntaram:
- E aí? Quando os soldados farão a intervenção?
O liberto começou a contar sobre o que viu lá dentro, sobre a limpeza e a movimentação pacífica dos soldados. Enquanto discorria, começaram a surgir gritos:
- Seu traidor da pátria! Tu deves ser do PT!
O liberto, então, começou a contar sobre a conversa que teve com o comandante e que ele havia dito que deveriam ler a Constituição Federal. A partir daí, não conseguiu mais falar.
Agora todos gritavam:
- Seu comunista! Sai fora, PT! Matem esse traidor! Vermelho! Molusco!
O liberto, temendo apanhar, começou a caminhar, sob fortes xingamentos, nem voltou mais para sua barraca de lona. Atravessou a calçada e, ainda cabisbaixo, seguiu o caminho de casa, que havia deixado há 15 dias. Ao dobrar a esquina, ouviu de seu amigo da barraca de lona:
- CO - MU - NIS - TAAAAAA!
“A cadela do fascismo está sempre no cio.”
Bertold Brecht