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QUANDO A CIDADE “FEIA” REVELA MAIS SOBRE NÓS DO QUE SOBRE ELA
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Publicado em 11/03/2026 04:36
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QUANDO A CIDADE “FEIA” REVELA MAIS SOBRE NÓS DO QUE SOBRE ELA

Ricardo Vianna Hoffmann

 

Quando a pessoa em situação de rua passa a ser tratada como um defeito estético da cidade, algo que “estraga a paisagem”, ela deixa de ser vista como aquilo que realmente é: uma violação de direitos humanos e da dignidade da pessoa humana.

Recentemente, uma charge circulou retratando Brusque como uma cidade “feia” por conta da presença de pessoas em situação de rua. A tentativa de humor talvez pretendesse provocar riso ou nostalgia de um passado idealizado. No entanto, em vez de provocar reflexão, acaba reforçando um estereótipo perigoso: o de que a pobreza é um incômodo visual, um problema estético a ser removido da paisagem urbana.

Por trás dessa representação aparentemente simples, esconde-se um problema muito mais profundo: a naturalização da desumanização.

Esse tipo de representação revela muito mais sobre a forma como enxergamos a desigualdade do que sobre a cidade em si.

Antes de qualquer julgamento simplista, é preciso lembrar um dado fundamental: o fenômeno da população em situação de rua não é isolado, nem local. Trata-se de uma realidade social complexa e crescente no Brasil. Levantamentos recentes indicam que mais de 365 mil pessoas vivem atualmente em situação de rua no país, número que tem aumentado nos últimos anos e que revela a dimensão estrutural do problema.

Por trás desses números existem histórias de ruptura familiar, desemprego, problemas de saúde mental, dependência química, violência, ausência de políticas públicas de moradia e fragilidade das redes de proteção social. A rua raramente é uma escolha. Na maioria das vezes, é o último estágio de um processo de exclusão.

Reduzir essa realidade a um problema estético, algo que “deixa a cidade feia” é, no mínimo, uma simplificação cruel.

Quando uma charge ou discurso público reduz essa realidade a um problema visual, algo que torna a cidade “feia”, corre-se o risco de deslocar o foco da discussão. Em vez de perguntar por que pessoas estão vivendo nas ruas, passa-se a perguntar como retirá-las do nosso olhar.

É nesse momento que a empatia social começa a desaparecer. Talvez seja necessário reformular a pergunta: o que realmente torna uma cidade feia?

Feia é a cidade sem saneamento básico adequado. Feias são as filas intermináveis na saúde pública. Feia é a falta de valorização dos professores e a escassez de investimentos em educação de qualidade. Feia é a violência contra as mulheres, que continua a assombrar tantas histórias. Feias são as mortes no trânsito que poderiam ser evitadas. Feia é a cidade sem árvores, sem sombra, sem planejamento urbano que respeite a vida.

Essas são feiuras estruturais, muitas vezes invisibilizadas.

Quando se coloca a população em situação de rua como símbolo da “feiura urbana”, cria-se um deslocamento do debate. Em vez de discutir as causas profundas da exclusão social, transforma-se a vítima em problema. Não se discute moradia, trabalho, saúde mental ou políticas públicas; discute-se apenas a aparência da cidade.

Essa lógica é profundamente injusta, pois não produz soluções. Produz apenas desumanização.

Cidades verdadeiramente bonitas não são aquelas onde a pobreza é escondida ou expulsa da paisagem. São aquelas que enfrentam suas desigualdades com políticas públicas sérias, com solidariedade social e com compromisso com a dignidade de todas as pessoas

A verdadeira beleza de uma cidade está na forma como ela trata os mais vulneráveis. O que realmente torna uma cidade feia não é a presença da pobreza e de pessoas em situação de rua, mas a ausência de humanidade diante dela.

Pense Nisso.

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