VARANDA DOS DESASSOSSEGOS
Ricardo Vianna HOFFMANN
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Brusque (SC)
“Meus desassossegos sentam na varanda...”
— João Chagas Leite
Eles estavam numa varanda, sentados lado a lado, mas distantes como dois mundos que ainda não haviam decidido colidir, num sofá confortável, com algumas almofadas, algumas no chão e uma manta atirada no encosto, próximos um do outro. Olhavam para frente, e a paisagem daquela grande varanda, toda de madeira, era a fachada da casa. Para chegar até a varanda, havia três degraus largos, também de madeira. O telhado era de telhas de barro, em tons avermelhados, que acompanhavam, num lance à frente, os degraus.
Na varanda, no lado direito do sofá em que estavam sentados, ficava a porta, sete metros depois, ficava um balanço de madeira para três pessoas, e, no lado esquerdo, duas redes, cujas pontas se tocavam e se abriam, formando a letra V. A varanda era florida, com diversas espécies de plantas coloridas. Havia uma pequena mesa com quatro cadeiras, todas de madeira, que harmonizavam com a varanda. Sobre a mesa, um relógio de areia, um incensário, de onde a fumaça de um incenso subia numa dança sensual, aromatizando a varanda e se dispersando pelo ar da noite que começava a surgir.
A vista da varanda, cuja casa ficava num pequeno elevado, dava a visão de um grande pasto verdejante, ao fundo, montanhas onde o sol se punha todos os dias, lembrando aqueles quadros pintados à mão de pôr do sol, em tons amarelos e vermelhos, sendo cobertos aos poucos pela escuridão da noite.
No lado esquerdo do sofá, um antigo aparelho de som, com excelente qualidade sonora, tocava baixo uma música que dava um tom todo especial àquele momento em que o sol parecia dar uma piscada, dizendo que voltaria logo mais, mandando seu último beijo de calor.
A música tocava baixo, e seus olhares, fixados no horizonte, sentiam na pele uma mistura de calor que partia e do frio da noite que chegava. A letra da música que tocava desinquietava os dois ouvintes... “meus desassossegos sentam na varanda. Pra matear saudades nesta solidão. Cada pôr do sol dói feito uma brasa. Queimando lembranças no meu coração...”.
E, por um instante, ele e ela se esqueceram do “tão normal”, pensando em ser “anormal”; suas mãos, como que instintivamente, se tocaram, e seus dedos se entrelaçaram. A sensação de seus toques foi instantânea, aquele toque que cura do caos, o calor de suas mãos, em segundos, percorreu todos os seus corpos, e uma sensação de liberdade, de estarem voando, tornou-se quase real com o leve vento que lhes beijou os rostos, afastando para longe seus desassossegos. Eles não conseguiram disfarçar o leve sorriso em seus lábios, que, naquele instante, desejavam se tocar suavemente.
Era o que mais chamava a atenção de seus olhos, que, para Doraci, era impossível evitar. Quando ele conversava frente a frente com Melissa, seus olhos percorriam seu cabelo cacheado, seus olhos castanhos e brilhantes e os lábios, que ele, quando anormal, sentia o forte desejo de tocar com seus lábios, de forma leve, suave, de forma aveludada, sem pressioná-los, apenas uma parada leve, um toque suave e úmido, como se beijasse uma pétala de rosa vermelha com uma gota de chuva sobre ela. Nesses instantes era quando se sentia anormal.
Aqueles breves momentos de Doraci e Melissa, anormais, logo foram desfeitos pelo barulho de dentro da casa, onde estavam seus amigos, que comemoravam o aniversário da amiga em comum, Adriana.
Suas mãos se afastaram, e todo aquele instante se fragmentou, num mundo de normalidade imposta por uma moralidade e consciência que cobravam sua volta à vida real. Se olharam e sorriram um para o outro, seus olhos brilhavam de felicidade e de uma vergonha marota, gostosa, como a de uma criança que, mesmo sabendo que fez uma travessura, mantém sua autoestima elevada, feliz e livre.
Já no escuro da noite, as duas luzes instaladas nas paredes ao lado do sofá se acenderam, não eram fortes, deixavam a varanda numa penumbra aconchegante. Pela porta passou um casal de namorados, que juntou duas almofadas que estavam no chão ao lado do sofá, perguntou para Melissa se podiam pegar a manta para eles, ao que Melissa cedeu. Os namorados sentaram-se nos degraus da varanda, o sol já havia ido dormir, e a noite estrelada e de lua cheia fazia-se imponente e soberana, e eles se cobriram com a manta antes de um longo beijo, assistido por Doraci e Melissa.
Melissa iniciou a conversa:
- Como este mundo está tão intolerante... sinto e sofro a dor deste mundo e dos tempos em que vivemos. Difícil viver esta vida, onde, para sobreviver, precisamos usar diversas máscaras, sermos tão normais.
- Sim, usamos máscaras, diversas máscaras: no trabalho é uma, com os amigos é outra, com familiares outra, nos eventos outra, na sociedade outra. Temos que nos enquadrar, sermos normais - confirmou Doraci.
- Às vezes gostaria de fugir de ser normal, às vezes desejo ser anormal, como agora.
- Sou normal, mas queria gritar para você: eu sou anormal! Mas minha mediocridade não deixa. Por isso, continuo normal, com vontade interior de ser anormal e gritar. Mas o normal é silenciador. Meus olhos veem, e nesses instantes o anormal se alegra interiormente e somente se contém ao voltar a ser normal. Amordaçado, segue se distanciando, mesmo sabendo que o vazio será preenchido pela saudade. Voltando ao normal! Seguindo normal. Você é importante!
- Grande conflito o nosso... também me sinto assim ... adestrada, tentando escapar. Você também é importante, disse Melissa.
- A gente aprende cedo a ser normal, disse ele. Aprende a caber. A não incomodar.
Melissa virou-se para ele.
- E você cabe?
A pergunta o fez travar.
Doraci pensou em sua vida. No trabalho, nas conversas automáticas, nos sorrisos calculados, nas opiniões contidas. Pensou nas vezes em que quis dizer algo e não disse. Nas vezes em que quis agir e recuou.
- Eu me adapto, respondeu.
Isso não é viver, disse ela, firme.
Doraci parou, e seus olhos se acharam, e seus pensamentos divagaram: é no olhar que conversamos e há tanto querer entre nós, mas o silêncio sempre presente não deixa revelar o quanto desejamos. Mas não falou, novamente voltou ao “normal” e silenciou.
Nesse momento, começou a tocar a música “Carinhoso”, na voz da cantora Marisa Monte, quando alguém abriu a porta e gritou:
- Venham, venham, vamos cantar o parabéns!
Doraci e Melissa se levantaram e entraram, seguidos pelo casal que estava sentado na escada da varanda.
Na sala, já estavam todos em pé. As luzes se apagaram, mãos voltaram a se tocar e se afastaram. Alguém trazia um bolo com 40 velinhas acesas e, o esposo de Adriana, começou a cantar o “parabéns pra você...”, seguido por todos os presentes.
Doraci sorria. Melissa também. Ambos sabiam exatamente o que estavam fazendo. Representando. Voltando. Reocupando seus lugares no mundo onde tudo era compreensível, normal e vazio.
Em nenhum momento se olharam. Porque olhar significaria lembrar. E lembrar significaria sentir. E sentir, naquele momento, já era saudade.
Lá fora, na varanda, o vento e o sereno da noite ocuparam o calor deixado no sofá de algo que sempre existiu. Mas que jamais será dito.
E a vida seguiu... normal.
Nota do autor: Este conto foi inspirado na música “Desassossego”, de João Chagas Leite, importante nome da música nativista gaúcha, cuja letra ecoa os sentimentos de desassossego e contemplação presentes nesta narrativa.