Offline
O RETORNO DA SÍNDROME DE VIRA-LATA (“MONGREL DOG”):
ENTRE A SOBERANIA E A SUBMISSÃO
Por Ricardo Vianna Hoffmann
Publicado em 31/03/2026 02:20
Entretenimento

O RETORNO DA SÍNDROME DE VIRA-LATA (“MONGREL DOG”): ENTRE A SOBERANIA E A SUBMISSÃO

Por Ricardo Vianna Hoffmann
A partir de Brusque/SC

Quando políticos brasileiros recorrem a potências estrangeiras, a história deixa de ser passado e se torna o presente.

O recente discurso do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), proferido durante a CPAC, conferência que reúne líderes conservadores, realizada em Dallas, no Texas (EUA), evidencia que a síndrome do “vira-lata” (“mongrel dog”) continua presente em muitos políticos e também em parcela da sociedade brasileira.

Em sua fala, Flávio fez um apelo para que os Estados Unidos exerçam “pressão diplomática” sobre as eleições no Brasil, o que reforça a gravidade do posicionamento adotado.

O “01”, como é chamado por seu pai, Jair Messias Bolsonaro (condenado por tentativa de golpe e atualmente cumprindo pena), esteve nos Estados Unidos e, no referido evento, ao lado de seu irmão, o “02”, Eduardo Bolsonaro, defendeu a intervenção norte-americana. Em seu discurso, deixou transparecer a intenção de facilitar a exploração de riquezas nacionais, como as chamadas terras raras, abrindo espaço para interesses do governo e dos grandes empresário estadunidenses. 

Leitor, pense: em troca de quê? Para beneficiar quem?

Já lemos e ouvimos diversas vezes a frase: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. A frase original, em inglês: “Those who cannot remember the past are condemned to repeat it”, é de George Santayana e consta na obra The Life of Reason (A Vida da Razão, em tradução livre), publicada em cinco volumes entre 1905 e 1906 (Rodrígues, 2024).

Embora eu esteja ciente de que é excessivo empregar essa frase da forma como usualmente é utilizada para comentar acontecimentos sociais ou políticos, vale destacar que, segundo o professor Martin Coleman, diretor da Santayana Edition, plataforma dedicada à vida e à obra de George Santayana, o autor tinha, na verdade, uma perspectiva mais ampla, voltada à natureza humana e à evolução histórica da consciência, e não propriamente a metas políticas ou políticas públicas (Rodrígues, 2024).  

Para compreender melhor a frase em seu sentido mais profundo, recomendo a leitura do artigo da jornalista Margarita Rodríguez, publicado em 9 de setembro de 2024, no site da BBC News Brasil, disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y8j1g7x04o.

Esclarecido isso, faço uso da frase em seu sentido mais restrito, ou seja, como instrumento de reflexão sobre acontecimentos sociais e políticos.

Assim, convido-o, leitor, a recordar o passado do Brasil, como instrumento crítico para compreender o presente.

Ao longo do século XX, especialmente no contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos passaram a enxergar o Brasil como um território estratégico, não apenas por sua posição geopolítica, mas também pela abundância de suas riquezas naturais e por seu potencial econômico.

Com o discurso de contenção do comunismo, consolidou-se uma atuação que extrapolava a diplomacia tradicional, buscando influenciar diretamente os rumos políticos e econômicos do país, garantindo acesso privilegiado a recursos e mercados.

Nesse processo, essa atuação externa não ocorreu de forma isolada. Pelo contrário, contou com o apoio ativo de setores internos brasileiros. Como demonstram estudos históricos, “políticos, empresários e grupos conservadores atuaram de forma alinhada com os interesses norte-americanos” (Silva, 2024), defendendo políticas que favoreciam a abertura ao capital estrangeiro e a atuação de empresas internacionais.

Esse alinhamento “não foi apenas ideológico, mas também econômico e estratégico” (Silva, 2024), pois tais grupos vislumbravam vantagens diretas na associação com o capital internacional e na manutenção de uma estrutura social que preservasse seus privilégios.

O discurso do chamado “perigo comunista” revelou-se, nesse contexto, um poderoso instrumento político, utilizado “para justificar intervenções externas, repressão a movimentos sociais e a própria reorganização do poder político, culminando no apoio ao golpe de 1964” (Silva, 2024).

Hoje, o discurso assume novas formas e já não se destaca o “vai virar comunista”; o que se observa é o apelo à potência estadunidense, em nome de interesses políticos. Preocupam, assim, os discursos que relativizam a soberania e abrem espaço para influências externas em decisões que deveriam ser exclusivamente nacionais.

A história pode não se repetir de forma idêntica, mas, diante das ameaças, é fundamental que aqueles que defendem a soberania permaneçam atentos. É justamente por isso que precisamos questionar: até que ponto esse tipo de posicionamento não representa uma renúncia silenciosa à autonomia do país? Até quando a soberania será tratada como um detalhe estratégico, e não como um valor fundamental?

Importante, leitor, pensar e refletir. Afinal, até onde os políticos irão para se eleger? Vale tudo? Vale mais do que o próprio país? Vale mais do que o seu povo?

Leitor, pense nisso! 1964 não pode voltar a ser presente. Nunca mais!

 

P.S.: Quando políticos negociam a soberania, ao país resta apenas a fidelidade dos cães vira-lata.

                             

Referências:

O DISCURSO de Flávio Bolsonaro em conferência do CPAC nos EUA. Metrópoles, YouTube, 28 mar. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CqtrIucb70w. Acesso em: 30 mar. 2026.

RODRÍGUEZ, Margarita. O que autor da frase “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” quis realmente dizer. BBC News Brasil, 10 set. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5y8j1g7x04o. Acesso em: 30 mar. 2026.

SILVA, Vicente Gil da. O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD): contexto histórico de surgimento e trajetória de Ivan Hasslocher. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 33, 2024. Anais [...]. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2024-10/1728979200_442bf31e184b34ebddaa23c0c1bd92c0.pdf. Acesso em: 30 mar. 2026.

 

 

Comentários